Grupo RCS lança campanha com ações para minimizar a seca que persegue o Nordeste

Em 1947, já cantava a seca Luiz Gonzaga nos versos de Asa Branca: “Que braseiro, que fornalha, nem um pé de plantação. Por falta d’água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão”. Setenta anos se passaram e letra se mostra ainda tão atual quanto no tempo do rei do baião. São os retratos da seca no Nordeste que denunciam a condição de risco em que milhares de brasileiros vivem expostos. Desde os primeiros registros do final do século XV até hoje, a situação parece a mesma: a falta de água continua a queimar o solo de sertão, gerando prejuízos inestimáveis para a população.

De acordo com dados do Ministério da Integração Nacional (MI), só em 2016, foram reconhecidos 1.489 eventos relacionados à seca e à estiagem no Nordeste. Nos primeiros meses deste ano, até a última atualização do MI, o número já chega a 774 casos, com fortes perspectivas de crescimento. Isso porque a região enfrenta a pior crise de abastecimento desde 2012. Segundo a Agência Nacional de Água (ANA), atualmente, os reservatórios do Nordeste contam com apenas 13,81% de água. No mesmo período do ano passado, em março de 2016, a marca era de 21%.  Ceará, Pernambuco e Paraíba são os estados afetados de forma mais severa, onde o volume já se encontra abaixo de 10%.

A região vive o que Regina Alvalá, coordenadora de Relações Institucionais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), define como “uma seca prolongada”. Há cinco anos, as chuvas vêm abaixo da média no semiárido nordestino, mesmo durante as estações chuvosas. Para além dos fatores geográficos naturais – que envolvem questões de relevo, latitude e poucos rios permanentes -, ocorre também o fenômeno El Niño, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que acaba impactando nas dinâmicas do clima. No Nordeste, isso significa longos períodos de estiagem.

Para além de fatores naturais, Alvalá destaca também a exploração do solo e as mudanças climáticas como fatores agravantes. “Tem toda essa questão do uso e da ocupação da terra por 500 anos, desde a colonização do Brasil. E, com temperaturas mais elevadas, ocorre alta evaporação da água do solo. É uma combinação de fatores que leva a esse cenário e que está ligado às mudanças climáticas”, aponta.

Essa realidade atinge principalmente aqueles já convivem com os impactos do baixo desenvolvimento, como no sertão, onde grande parte da população depende da agricultura de subsistência. A falta de água, recurso abundante no Brasil, mas mal distribuído entre suas regiões, expõe os riscos de uma realidade mais ainda complexa: a fome. Sem o recurso para irrigar as plantações, moradores não conseguem garantir a alimentação necessária para o sustento de suas famílias e também de seus animais.

Com o objetivo de melhorar a segurança hídrica da região, o governo federal começou, em 2007, obras para realizar a transposição do rio São Francisco. O rio concentra 63% das águas da região Nordeste, segundo a Embrapa, e tem a vantagem de nunca secar, ao contrário da maioria dos fluxos de água na região. São mais de 700 quilômetros de canais que dividem o curso da água em dois eixos: o Norte, que levará as águas ao sertão de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, e o Eixo Leste, que abastecerá territórios de Pernambuco e Paraíba. O Eixo Leste foi inaugurado em março deste ano, enquanto a previsão de conclusão de obras do Eixo Norte é até o fim do segundo semestre de 2017.

A obra gera polêmica. Levar água para regiões secas não só melhoraria a qualidade de vida das pessoas que ali moram, mas também favoreceria a economia local, possibilitando melhorias na produção de alimentos e criação de rebanho. Ao mesmo tempo, a grandiosidade da obra pode causar enormes impactos ambientais por interferir diretamente no ecossistema da região. Para a pesquisadora e hidróloga do Cemaden, Adriana Cuartas, o rio tem plenas condições de comportar a transposição e a quantidade de água extraída não é significativa. O problema, identifica, são os afluentes do Velho Chico. A seca dos últimos anos prejudicou o nível de água de toda a bacia hidrográfica.

Olhando as médias dos principais reservatórios do rio, Três Marias e Sobradinho, nota-se que os níveis estão bem abaixo da média histórica. A vazão natural de Três Marias, entre 1941 e 2015, foi de 682 metros cúbicos por segundo (m³/s). Em março deste ano, o valor ficou em torno de 257 m³/s, o que evidencia uma queda significativa em um período curto de tempo.

Em Sobradinho, a situação se repetiu: a vazão no último mês, em fevereiro de 2017, foi de 1129 m³/s, enquanto a média histórica era 2623 m³/s. “Logo no início, a transposição vai auxiliar [no abastecimento de água].Porém, atualmente, as vazões afluentes estão bem abaixo da média histórica. Parte da água liberada de Sobradinho alimenta o reservatório de Itaparica, a partir do qual será liberada a água para o eixo Leste”, exemplifica.

 

Iniciativas de quem quer diminuir os impactos da seca

Os protocolos mundiais para redução de riscos de desastre destacam a cooperação entre pessoas e nações como um caminho para a diminuição dos impactos dos extremos climáticos, entre eles a seca. Pensar em soluções, mesmo que pequenas, que possam auxiliar na construção de uma sociedade mais resiliente – capaz de responder e adaptar-se ao efeitos do clima – é de extrema relevância, ainda mais considerando o cenário de instabilidade que vivemos atualmente.

Entre estas iniciativas está a packH2O, mochila para o transporte de água, desenvolvida com o apoio da Greif, empresa do setor de embalagens industriais. O produto foi criado em 2010 com o intuito de diminuir as vulnerabilidades das famílias do Haiti. Gustavo Melo, representante da packH2O na América Latina, conta que o CEO da empresa estava em uma missão de ajuda humanitária – após o terremoto que deixou mais de 200 mil mortos – e viu muitas mulheres e crianças transportando água por longos trajetos em baldes e outros recipientes inadequados. Identificando os possíveis riscos de contaminação que aquele tipo de armazenamento poderia oferecer, ele resolveu criar uma alternativa mais segura: a packH2O.

A estrutura é simples, uma mochila com um compartimento principal para guardar o recurso. Na parte da frente, ela conta com uma espécie de bolso com torneira embutida, o que facilita o consumo e reduz o desperdício. “Tem uma alça que pode ser usada para deixar ela pendurada com a torneira. Quer dizer, fica mais fácil para usar no dia a dia”, ressalta Melo. Ergonomicamente a pack também é melhor, pois distribui o peso entre os ombros, diminuindo a sobrecarga que os baldes na cabeça causavam no pescoço e na coluna. Atualmente, existem duas versões de mochila, uma indicada para jovens e crianças, com capacidade de até 10 litros de água, e outra para adultos, com até 20 litros.

As mochilas são distribuídas em regiões identificadas com alto grau de vulnerabilidade hídrica, onde as pessoas precisam se deslocar para obter o recurso. Melo conta que só na América Latina 40 mil packs foram entregues, beneficiando cerca de 200 mil pessoas. “Tudo é feito através de doações de pessoas ou empresas com o apoio da Columbus Foundation”, explica. O montante arrecadado ajuda a subsidiar a fabricação e a distribuição das mochilas ao redor do globo. O custo total é de 10 dólares por mochila, já incluindo os gastos com a logística de entrega. Com as mochilas em mãos, um lugar carente é escolhido para ser beneficiado e ONGs e outras instituições sem fins lucrativos da região são contatadas para receber os produtos e treinar as pessoas sobre como utilizá-las. A iniciativa rendeu a Greif o Prêmio ECO de sustentabilidade empresarial em 2015.

No Brasil, as packs ainda não foram distribuídas, mas está na lista de locais prioritários para a Greif. “A gente lançou a campanha para alavancar as questões com a pack, só que não tivemos a adesão das empresas”, comenta o representante do produto sobre a distribuição no Nordeste brasileiro. No momento, eles estão pensando em uma alternativa customizada para conseguir incluir o projeto no país e beneficiar famílias que sofrem com a falta de água.“O mais importante para gente é contribuir para a humanidade”, completa Melo.

A situação da seca também preocupa o terceiro setor. A ONG Habitat para a Humanidade Brasil, que trabalha com acesso à moradia adequada, lançou o projeto Água para Vidasem 2012 para trabalhar com famílias rurais no semiárido nordestino, atuando justamente na questão do acesso a água. Através da construção de cisternas e reparo de telhados para captação da chuva, a iniciativa já auxiliou quase 500 famílias de baixa renda espalhadas por 15 municípios do interior de Pernambuco. O projeto arrecada recursos por meio de doações da iniciativa privada e conta com parcerias para a execução das construções.

Segundo Mohema Rolim, gerente de Programas da ONG, nos últimos anos, a situação da seca está piorando. As cisternas não conseguem dar conta do consumo das famílias durante o ano, já que dependem do reabastecimento através das chuvas. “A gente percebe o aumento no número de caminhões-pipa levando água. Cidades que historicamente nem tinham cisterna, comunidades mais urbanas, estão sem água. Imagina as famílias que estão na zona rural”, relata.

Recentemente, alunos da PUC-Rio firmaram uma parceria com a ONG e conseguiram arrecadar mais de R$ 58 mil através de um crowdfunding. Em abril, o grupo irá para o Nordeste auxiliar na construção das cisternas. Laura Landau, formada em design pela universidade e uma das coordenadoras da equipe, afirma que “o interessante do projeto é que não estamos indo apenas para construir, e ir embora. Essas famílias estarão lá construindo com a gente. Vai acontecer uma troca: a gente aprendendo com o que eles têm lá e eles com a gente também”.

Segundo Mohema Rolim, além da construção da cisterna ou da reforma de telhados, o projeto também oferece cursos de capacitação às famílias. As temáticas são variadas: vão desde gestão de recursos hídricos, educação financeira, gênero e direitos humanos. “Esses cursos de capacitação surgiram principalmente para ensinar a família a manusear e manter a cisterna. Mas começamos a agregar outras questões, falamos um pouco da questão da água como um todo, questões ambientais, sobre uma agricultura mais saudável. A ideia é levantar possibilidades para as pessoas que moram ali, não só para manter a cisterna, mas para que dali saia uma relação melhor e mais sustentável com o semiárido”, compartilha.

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